Revista Manauara
Cultura

Oficinas ‘Atores Anônimos’ abrem inscrições para nova etapa em Manaus

Projeto criado pelo ator, diretor e pesquisador Dyogo Ramon durante doutorado em Artes Cênicas será realizado no Cine Teatro Padre Pedro Vignola, na Cidade Nova

Estão abertas até 6 de outubro as inscrições para as Oficinas Atores Anônimos, projeto de formação, experimentação e criação teatral desenvolvido pelo ator, diretor e pesquisador amazonense Dyogo Ramon. A iniciativa será realizada em Manaus, cidade onde o artista iniciou sua trajetória no teatro, e terá como sede, nesta primeira rodada, o Cine Teatro Padre Pedro Vignola, localizado no Centro Estadual de Convivência da Família Padre Pedro Vignola, no bairro Cidade Nova.

Os interessados podem se inscrever por meio de formulário disponibilizado pela organização no link https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSdfQ_tYb1PWmwH2T_7ZRocavy2maca1nJuF4AZuNtFiHXfcxg/viewform?usp=publish-editor. As datas de atividades ainda serão confirmadas e os locais de realização dos encontros, bem como seus horários, serão divulgados posteriormente no Instagram @atoresanonimos e @dyogoramon.

Criado como parte da pesquisa de doutorado de Dyogo Ramon em Artes Cênicas, o projeto investiga processos de formação de atores e atrizes a partir de suas histórias de vida, experiências, formação profissional e processos de autoconhecimento. A iniciativa já foi desenvolvida em Goiânia (GO) e Campo Grande (MS), reunindo artistas profissionais e pessoas em formação em atividades de ensino, prática, criação e compartilhamento.

A proposta das oficinas em Manaus é reunir novamente atores e atrizes em um espaço de formação e experimentação, colocando em diálogo as experiências individuais dos participantes, seus processos formativos e suas práticas artísticas. Entre as atividades estão estudos técnicos de atuação, improvisação e processos de criação para a cena, além de experimentações cênicas, criação de cenas, performances, propostas artístico-pedagógicas, diálogos e rodas de conversa.

A composição dos grupos desenvolvidos ao longo da pesquisa levou em consideração princípios de diversidade, acessibilidade e equidade, buscando contemplar diferentes experiências e trajetórias, incluindo pessoas negras, integrantes dos povos originários, pessoas LGBTQIAPN+ e pessoas com deficiência. A iniciativa também procura aproximar artistas iniciantes, estudantes e profissionais, promovendo o encontro entre diferentes gerações.

Segundo a organização, a etapa em Manaus não pretende simplesmente reproduzir as experiências realizadas em outras cidades. O objetivo é dar continuidade à pesquisa e adaptar seus aprendizados ao contexto amazônico e à cidade onde a trajetória artística de Dyogo Ramon começou.

A pesquisa que deu origem ao projeto foi desenvolvida durante o doutorado em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia (UFBA), sob orientação da professora doutora Hebe Alves, docente da Escola de Teatro da instituição, atriz e diretora. O trabalho foi desenvolvido de acordo com as diretrizes éticas aplicáveis às pesquisas realizadas no Brasil.

Trajetória começou na Cidade Nova

A realização das oficinas na Cidade Nova também tem um significado especial para Dyogo Ramon. Nascido em Manaus e morador do bairro, o artista iniciou sua relação com o teatro ainda na infância. Estudante de escolas públicas, participou de projetos socioculturais e frequentou o Liceu de Artes e Ofícios Claudio Santoro. Aos 12 anos, começou sua trajetória profissional nos palcos.

Aos 13 anos, criou no próprio bairro um projeto sociocultural no qual coordenava e ministrava aulas de teatro aos finais de semana para um público diverso. Ao final de cada semestre, os estudantes apresentavam um espetáculo. A experiência contribuiu para consolidar o interesse de Ramon pela formação teatral, que posteriormente se tornou também objeto de sua atuação acadêmica como professor e pesquisador.

Aos 16 anos, ingressou no curso de Teatro da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Mais tarde, mudou-se para Goiânia, onde, aos 21 anos, iniciou o mestrado em Artes da Cena na Universidade Federal de Goiás (UFG). Em 2022, ingressou no doutorado em Artes Cênicas da UFBA, período em que também morou em Salvador.

No dia 17 de julho, aos 27 anos, Dyogo Ramon defendeu a tese “Em Autoconhecimento: composição de uma proposta formativa para atores e atrizes a partir das histórias de vida, formação e ofício”. Com a conclusão do doutorado, tornou-se, segundo a organização do projeto, o doutor em Artes Cênicas mais jovem do Amazonas. Não há, porém, um levantamento nacional consolidado que permita afirmar que ele seja o mais jovem doutor da área em todo o país.

Ao longo da formação acadêmica, Ramon foi frequentemente o estudante mais jovem de suas turmas. Para ele, a relação com a idade esteve ligada à própria construção de sua identidade. “A questão da idade sempre foi algo muito complexo na minha identidade. Quando eu tinha 16 anos e entrei na faculdade, me via como um adulto em busca de materializar seus sonhos. Só depois, já na casa dos 20, consegui perceber que eu era um adolescente. Alguns chamam isso de ‘alma velha’, mas eu costumo dizer que as questões da vida me impulsionaram a correr contra o tempo”.

Formação como instrumento de transformação

Apesar da trajetória acadêmica, Dyogo afirma que o doutorado não fazia parte de seus planos iniciais. O objetivo, segundo ele, sempre esteve mais relacionado à possibilidade de viver da própria arte e transformar a realidade por meio da educação. “Nunca sonhei com doutorado. Quando entrei na academia, para falar a verdade, nem sabia o que era. Meu sonho era simplesmente ser ator e viver dignamente de minha arte”.

O artista também relaciona sua trajetória acadêmica à busca por melhores condições de vida para si e para sua família. “Não estudei por causa de um título, estudei porque esse título é possibilidade de mudança de vida para quem veio de um lugar onde sonhar era quase impossível”.

E acrescenta: “Não quero ser chamado de doutor, quero ter dignidade pra viver bem e dar à minha mãe o que, em outros momentos da vida, nos foi tirado ou negado”.

Para Ramon, o compartilhamento dos conhecimentos adquiridos ao longo da formação é parte fundamental dessa trajetória. “Que isso sirva de coragem para outros tantos como eu, vindos lá das beiradas esquecidas das grandes capitais deste Brasil”.

As Oficinas Atores Anônimos são uma realização da DR Criações, em parceria com o Grupo Atores Anônimos, contemplada pelo Edital 010/2026 – Teatro, da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura – Manaus. O projeto conta com apoio do Conselho Municipal de Cultura (Concultura) e da Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos (Manauscult), além da parceria da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado do Amazonas (SEC) e do Liceu de Artes e Ofícios Claudio Santoro.

Mais informações podem ser acompanhadas pelos perfis oficiais no Instagram: @atoresanonimos, @drcriacoesecia e @drlivrosepesquisa.

Fotos: Divulgação

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