O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, traz à tona discussões sobre a ocupação feminina em espaços historicamente masculinos, especialmente nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM). Em Manaus, esse movimento de ocupação ganha contornos regionais através do legado deixado pela professora e pesquisadora Martha Falcão. Falecida em 2016, a ecologista não apenas deu nome a uma das instituições de ensino mais tradicionais da cidade, mas estabeleceu um DNA educacional focado no protagonismo feminino e na preservação ambiental.
Nas Instituições Nelly Falcão de Souza (INFS), que englobam o Pinocchio Centro Educacional e o Colégio Martha Falcão, a ciência é apresentada às meninas não como uma possibilidade distante, mas como uma ferramenta de transformação. O pilar dessa formação é o Clube do Futuro Cientista, projeto que estimula a pesquisa prática e visitas técnicas. Esse ambiente de fomento tem gerado resultados que ultrapassam os muros da escola e se transformam em carreiras sólidas e inovações para o mercado de trabalho.
Um exemplo desse impacto é a trajetória de Ana Cecília Nina Lobato, de 33 anos. Hoje doutora em agronomia tropical e gerente de produção vegetal no Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Amazonas (IDAM), a engenheira agrônoma teve seu primeiro contato com o rigor científico ainda no Ensino Médio. Foi durante uma feira de ciências que Ana Cecília descobriu o potencial das plantas medicinais no INPA, despertando a curiosidade que a levaria a desenvolver, anos mais tarde, um material biodegradável feito da fécula do cará para substituir o plástico.

“A agronomia ainda é uma área bastante masculina e enfrentamos desafios diários. No entanto, a base que tive no colégio foi fundamental para minha postura profissional. Aprendi a me expressar, a escrever com rigor e a ter a segurança necessária para levar recomendações técnicas a produtores rurais com diferentes realidades e expectativas”, afirma Ana Cecília. Para ela, o diferencial foi o incentivo precoce à oralidade e ao comportamento científico, ferramentas que hoje utiliza para liderar equipes no setor público.
Na nova geração, o entusiasmo pela tecnologia segue o mesmo fluxo. Natália Barros, de 20 anos, ex-aluna da turma de 2022, cursa Engenharia de Controle e Automação na Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Sua escolha de carreira foi selada durante a gincana de 35 anos do colégio, quando precisou construir um robô em apenas uma semana. O desafio, que poderia intimidar muitos jovens, serviu como confirmação de sua aptidão para a engenharia, área onde as mulheres ainda são minoria.

Natália recorda que, embora sua turma fosse majoritariamente masculina, o ambiente escolar sempre priorizou o respeito e a equidade. “Nunca me senti excluída e isso reflete a educação que recebemos. Meus professores e pedagogos foram os primeiros a dizer que eu deveria seguir meu sonho”, destaca a futura engenheira. Segundo ela, o segredo para as mulheres no setor é a liderança: “Não se trata apenas de ocupar espaços, mas de liderar a inovação com uma visão feminina única. Nossa perspectiva é, muitas vezes, a peça que falta para solucionar grandes problemas”.
O ciclo de incentivo continua vivo com alunas como Naomi Nakamura, de 17 anos. Atualmente no 3º ano do Ensino Médio, Naomi representa a conexão entre a pesquisa científica e o impacto global. A estudante encontrou na ciência uma forma de expressão e de paz. Sua atuação já rompeu fronteiras: ela faz parte do clube Girl Up, apoiado pela ONU, e está envolvida em pesquisas com a Universidade de Toronto e a Universidade de Nova York, onde participará nesta semana de um painel sobre o papel das mulheres na saúde global.
Naomi desenvolveu um projeto de biofilme biodegradável para proteger as águas da Amazônia, unindo a preocupação ambiental da patrona Martha Falcão com a tecnologia moderna. Para a estudante, a ciência é um campo de batalha contra estereótipos que ainda cercam as mulheres latinas. “É importante dar destaque às mulheres brasileiras que, muitas vezes, enfrentam preconceitos em ambientes acadêmicos internacionais. Precisamos ser vistas como inovadoras e empreendedoras, não apenas como cuidadoras”, pontua a jovem.
O suporte para que alunas como Naomi alcancem conferências internacionais e universidades estrangeiras vem de uma estrutura que prioriza o debate e a simulação de modelos como os da ONU. A participação em clubes de cientistas e atividades práticas de cultivo de mudas em periferias de Manaus são exemplos de como a teoria se converte em responsabilidade social e científica. A ideia é que o conhecimento não fique restrito às bibliotecas, mas que ganhe as ruas e os laboratórios de inovação.
A diretora geral das INFS, Nelly Falcão de Souza, enfatiza que a missão institucional vai além do conteúdo programático exigido pelo Ministério da Educação (MEC). Para a gestora, formar mulheres cientistas é uma questão de justiça social e desenvolvimento regional. “Nossa missão é garantir que cada menina que passe pelo Pinocchio e pelo Martha Falcão entenda que sua curiosidade é o seu maior patrimônio. Nós honramos o legado de Martha Falcão oferecendo as ferramentas para que elas não apenas entendam o mundo, mas tenham a coragem de transformá-lo através da ciência e da ética”, explica a diretora.

