O lodo resultante do tratamento de água e o óleo de cozinha descartado na pia têm destinos que nem sempre são conhecidos pela população. Em Manaus, esses materiais são reaproveitados em novas cadeias produtivas: o lodo das Estações de Tratamento de Água (ETAs) é utilizado na fabricação de fertilizantes, enquanto o óleo usado nas cozinhas segue para a produção de biodiesel. As iniciativas se relacionam à economia circular, conceito que busca reduzir o desperdício e reinserir materiais nos processos produtivos.
Em uma cidade cortada por igarapés e cercada por uma extensa rede hídrica, a destinação correta dos resíduos ajuda a prevenir a poluição dos cursos d’água e a reduzir os impactos ambientais. E o que vai parar no esgoto, é tratado nas ETEs e devolvido ao rio como água tratada.
Lodo do tratamento de água vira matéria-prima para fertilizantes
O tratamento da água nas Estações de Tratamento da Águas de Manaus gera o lodo de ETA. Desde 2021, o material é destinado a uma empresa do setor agropecuário para utilização na fabricação de fertilizantes.
Segundo a concessionária, a parceria com a Timac Agro permite encaminhar, em média, 27 toneladas de lodo por mês. A empresa parceira assume a retirada e o transporte do resíduo, que passa a ser utilizado como matéria-prima. Mantido esse volume ao longo do ano, são cerca de 324 toneladas destinadas ao reaproveitamento.
“O lodo gerado no tratamento de água não precisa de descarte. Na Águas de Manaus, esse resíduo é destinado a uma parceira do setor agropecuário e reaproveitado como matéria-prima na produção de fertilizantes. E estamos construindo uma Estação de Tratamento de Lodo na Ponta do Ismael, com conclusão prevista para meados de 2028, para ampliar ainda mais essa solução e fazer com que o saneamento caminhe, cada vez mais, com a sustentabilidade”, afirma Jessica Candeia, gerente de Operações da Águas de Manaus.

ETE Raiz: O esgosto tratado é devolvido para o igarapé do 40
O cuidado com o meio ambiente também envolve as Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs). A ETE Raiz tem capacidade para tratar 230 milhões de litros por mês, mas atualmente processa cerca de 13 milhões de litros mensais, o equivalente a aproximadamente 5,7% da capacidade instalada.
Para ampliar a vazão, é necessário que os imóveis da região se conectem às redes de esgotamento sanitário já implantadas. A interligação permite que o esgoto produzido nas residências chegue à estação e receba tratamento.
Segundo a Águas de Manaus, todo o esgoto coletado pela unidade passa por tratamento antes de ser devolvido ao Igarapé do 40.
Óleo que poderia poluir igarapés agora vai virar biodiesel
O cuidado com o meio ambiente começa dentro de casa, com atitudes simples, como o descarte correto do óleo de cozinha usado nas frituras. No Brasil, estima-se que uma família de quatro pessoas consuma, em média, de 3 a 4 litros de óleo por mês. Cada litro descartado incorretamente pode poluir até 25 mil litros de água.

Para conscientizar a população sobre o descarte adequado, o programa De Olho no Óleo, lançado há pouco mais de um mês pela Águas de Manaus em parceria com a H2O Sustentável, orienta os moradores a armazenar o óleo usado em garrafas PET e levá-lo a um dos pontos de coleta.
“O descarte incorreto do óleo de cozinha em pias, ralos, solo ou diretamente nos igarapés compromete seriamente a qualidade da água. Por não se misturar com a água, o óleo pode formar uma película na superfície, prejudicando a entrada de luz e as trocas de oxigênio, com impactos sobre peixes, plantas e outros organismos aquáticos. Além disso, quando lançado na rede de esgoto, pode causar obstruções, aumentar custos de manutenção e prejudicar a eficiência do tratamento”, explica Marcelo Pereira, gerente de Meio Ambiente, Segurança e Trabalho, da Águas de Manaus.
Cristina Pereira, artesã e líder comunitária no bairro Redenção, conta que os moradores já começaram a participar da iniciativa.

“O projeto está tendo aceitação aqui no bairro e a gente já trocou alguns litros de óleo por detergente. O posto de coleta abre de segunda a sexta, a partir das 14h. É só trazer!”, afirma.
Após o recolhimento, o óleo passa por filtragem para retirar umidade, sujeira e restos de alimentos. Em seguida, é encaminhado a usinas de biocombustíveis, onde uma reação química o transforma em biodiesel.

O combustível produzido é incorporado à mistura do diesel comercial, utilizado em veículos como caminhões e ônibus.
“Esse biodiesel vira combustível de verdade. Hoje no Brasil todo diesel é o B15, ou seja, em cada 100 litros de diesel, 15 litros são de biodiesel como o que fazemos com o óleo usado. É ele que abastece caminhões e ônibus. Ou seja, o óleo que ia poluir o igarapé volta como energia limpa”, afirma Paulo Marusso, proprietário da empresa H2O sustentável.
O gerente de Meio Ambiente, Segurança e Trabalho, da Águas de Manaus explica que o biodiesel produzido a partir do óleo usado emite menos fumaça e CO₂ do que o diesel convencional:
“Além de impedir que o óleo usado chegue aos igarapés, sua transformação em biocombustível gera um segundo benefício ambiental: a redução do consumo de combustível fóssil. Como referência, cada litro de diesel substituído representa cerca de 2,7 kg de CO₂ fóssil que deixam de ser emitidos na combustão, fortalecendo a contribuição do projeto De Olho no Óleo para a economia circular e a redução das emissões de gases de efeito estufa”, destaca Pereira.
Onde entregar o óleo usado
O programa De Olho no Óleo disponibiliza pontos de coleta em diferentes áreas de Manaus:
- Sede administrativa da Águas de Manaus — Aleixo;
- Loja de atendimento da Águas de Manaus — Centro;
- Central Única das Comunidades — Compensa;
- REUSA — Beco São Vicente, Redenção;
- Conselho de Desenvolvimento Social do Amazonas — Crespo;
- Associação de Moradores do Viver Melhor 2
- Maná do Céu Restaurante — Coroado;
- Instituto Cultural de Desporto e Lazer do Estado do Amazonas (ICDLAM) — Braga Mendes;
- Instituto Ação Social Jusmaf — Jorge Teixeira;
- Associação Mulheres Girassóis — Jorge Teixeira 4.
Economia circular e responsabilidade ambiental
A Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída pela Lei nº 12.305/2010, estabeleceu diretrizes para a gestão integrada e a destinação ambientalmente adequada dos resíduos no Brasil. Entre seus princípios estão a prevenção e a redução da geração de resíduos, o incentivo à reutilização e à reciclagem e a responsabilidade compartilhada entre poder público, empresas e consumidores.
O reaproveitamento do lodo do tratamento de água e a transformação do óleo usado em biodiesel dialogam com a lógica da economia circular: materiais que poderiam ser descartados passam a ter utilidade em outros processos produtivos. As iniciativas também se relacionam à agenda ESG, que considera os aspectos ambientais, sociais e de governança na atuação das organizações.
Em Manaus, dar um novo destino aos resíduos é parte de um desafio maior: reduzir os impactos do descarte inadequado e aproveitar melhor os recursos disponíveis. A economia circular começa quando um material deixa de ser visto apenas como sobra, mas ganha relevância ambiental quando seu destino e seus resultados podem ser demonstrados.

