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Brasil pode ser referência para frear o aquecimento global? Segundo Ana Toni, CEO da COP 30, já existem tecnologias disponíveis e soluções economicamente viáveis

“Desafio é transformar esse tema técnico em uma agenda compreendida e abraçada pela sociedade”, diz diretora-executiva da COP no Brasil durante Fórum de Emergência Climática, na Rio Nature & Climate Week, que termina neste sábado (6)

Realizado durante a Rio Nature & Climate Week, que termina neste sábado (6), o “Fórum Metano: Freio de Emergência Climática” reuniu em cinco mesas de debate cientistas, gestores públicos, representantes do setor produtivo, da sociedade civil e lideranças climáticas em torno de uma pergunta central: Se sabemos onde estão as emissões e conhecemos as soluções, por que ainda não avançamos na velocidade necessária? 

Para a CEO da Cop30 no Brasil, Ana Toni, as emissões de metano, presentes na agropecuária, nos resíduos e no setor de óleo e gás, embora sejam um assunto complexo, precisam ganhar espaço no debate público.

“Reduzir as emissões de metano é uma das formas mais rápidas de ganhar tempo na luta contra a mudança do clima. Trata-se de um gás de efeito estufa extremamente potente, cerca de 80 vezes mais impactante que o CO₂ no curto prazo, mas que permanece na atmosfera por um período relativamente menor. Por isso, agir sobre o metano produz resultados mais imediatos. O mais importante é que já existem tecnologias disponíveis e soluções economicamente viáveis. O desafio agora é transformar esse tema técnico em uma agenda compreendida e abraçada pela sociedade, e é aí que a comunicação desempenha um papel fundamental”, afirmou a economista e especialista em políticas climáticas.

Para a ex-ministra do Meio Ambiente e Mudança Climática, Marina Silva, a mudança do clima não é um problema de um setor da economia, mas um desafio que atravessa toda a sociedade. “Enfrentá-lo exige ação coordenada, financiamento, inovação e compromisso político. Seja reduzindo metano ou CO2, só alcançaremos nossas metas climáticas se governos, empresas, cientistas e sociedade atuarem juntos para enfrentar o desmatamento, as queimadas e as emissões dos combustíveis fósseis”, disse Marina.

O Brasil é o quinto maior emissor de metano (CH4) do planeta, atrás de China, EUA, Índia e Rússia, mas também entre os países com maior potencial para liderar sua redução. Responsável por cerca de 1/3 do aquecimento global desde a era industrial, esse superpoluente tem uma característica que o diferencia do carbono (CO)₂: seu tempo de permanência na atmosfera é muito menor, cerca de 12 anos, em média, o que significa que reduções agora produzem efeitos climáticos em anos, não em séculos, como o carbono.

“Quando falamos em mitigação de metano, estamos falando de soluções concretas e acessíveis: compostagem de resíduos orgânicos, produção mais sustentável de carne, leite e arroz, e combate aos vazamentos na indústria de petróleo e gás. São medidas de baixo custo quando comparadas a outras ações climáticas e que geram benefícios adicionais para a sociedade, como mais empregos, melhorias na saúde pública e maior eficiência na gestão de resíduos. Ou seja, reduzir o metano não é apenas uma agenda climática; é uma agenda de desenvolvimento, qualidade de vida e economia para a população”, afirmou Henrique Bezerra, líder do Global Methane Hub (GMH) na América Latina.

Ao longo de cinco mesas temáticas, o Fórum Freio de Emergência Climática posicionou o país no centro de uma conversa internacional sobre clima, desenvolvimento e liderança. Ao reunir representantes de organizações globais, formuladores de políticas públicas, cientistas, comunicadores, setor produtivo e sociedade civil, o evento no Cais Mauá, nesta quarta-feira (3), evidenciou uma realidade incontornável: o Brasil ocupa hoje uma posição singular na agenda do metano. Temos conhecimento científico, capacidade institucional, experiências já testadas em campo e uma posição estratégica no pós-COP30, disseram os painelistas. Confira abaixo outras falas:

Agropecuária

No caso das emissões na agropecuária, Juan Andrés Cardoso, do Centro Internacional de Agricultura Tropical (CIAT), mostrou que compostos antimetanogênicos, que são aditivos alimentares incorporados à dieta dos bovinos, inibem a produção de metano no rúmen sem comprometer a produtividade. Os resultados já documentados em estudos controlados mostram reduções de até 30% nas emissões por animal. A ciência, avaliou Cardoso, está madura. O que falta é a ponte entre o campo experimental e a adoção em escala.

” Já existem evidências consistentes de que é possível reduzir as emissões de metano na pecuária sem comprometer a produtividade. O desafio agora é continuar ampliando o conhecimento sobre quais estratégias funcionam melhor em diferentes contextos e sistemas produtivos”, afirmou Juan Andrés Cardoso.

Resíduos

No que diz respeito aos resíduos (o lixo), os painelistas mostraram que é possível converter um passivo ambiental em uma agenda capaz de gerar benefícios climáticos, econômicos e sociais.

“Para combater a mudança do clima […] precisamos acelerar a transição de uma economia baseada no descarte para uma economia circular, com mais reciclagem, reaproveitamento de materiais, valorização dos catadores e destinação adequada dos resíduos. Essa é uma agenda que reduz emissões, melhora a saúde pública e cria empregos verdes em todo o país”, disse Adalberto Maluf, do Ministério do Meio Ambiente.

Já Bernardo Ornelas, da Comlurb, apresentou experiências concretas do Rio de Janeiro, incluindo o Ecoparque do Caju e Seropédica, que transforma resíduos orgânicos em biogás e biometano. O caso prova que a tecnologia funciona e que o modelo é economicamente viável. O problema, identificou Ornelas, é que ainda não existe o arranjo institucional e financeiro necessário para replicá-lo. 

“Capturar o metano dos resíduos é uma das formas mais eficientes de combater a mudança do clima. Com isso, evitamos a emissão de um gás altamente poluente e ainda produzimos combustível renovável capaz de substituir derivados de petróleo. O desafio agora é criar políticas públicas e incentivos econômicos que reconheçam o biogás e a matéria orgânica como ativos da transição energética e climática”, afirmou Ornelas.

Para Claudete Costa, que começou a trabalhar como catadora de recicláveis ainda na infância, e hoje é uma das lideranças da União Nacional das Organizações Cooperativistas Solidárias (UNICOPAS), os catadores de materiais recicláveis sustentam informalmente uma parcela significativa da reciclagem urbana no Brasil, e são sistematicamente excluídos dos modelos formais de economia circular. 

“A economia circular não pode ser uma agenda de exclusão disfarçada de solução. Os catadores não são parte do problema. Já são parte da solução há décadas. O que muda é quem recebe crédito e renda por isso”, disse ela.

Dados e tecnologia

O papel dos dados e da tecnologia de monitoramento da agenda climática também foram temas do debate. De gás invisível a um superpoluente rastreável por satélite, o metano aparece como possibilidade real e imediata de reduzir o aquecimento global.

Segundo Tasso Azevedo, do MapBiomas, plataformas como MapBiomas e o SEEG mudaram fundamentalmente a capacidade da sociedade civil de contestar dados oficiais, pressionar governos e responsabilizar empresas. “Antes, o governo definia o problema. Hoje, a sociedade consegue medir por conta própria, e isso muda completamente a dinâmica de pressão e regulação.”

“Dados são poder. E quando a sociedade civil passa a produzir dados tão ou mais confiáveis que os do governo, o jogo muda. Não dá mais para esconder emissões atrás de metodologias opacas”, afirmou Tasso.

“A margem de manobra para quem emite está diminuindo. O problema não é mais a falta de dados. É a falta de regulação à altura dos dados que já temos”, disse Paula Garcia Holley, da Clean Air Task Force.

Urias Bueno Neto, do Instituto Arayara, trouxe um dado perturbador: há casos documentados em que monitoramento independente impediu a aprovação de projetos de energia fóssil. A pergunta que fica é se o Brasil está avançando ou recuando nessa capacidade, num momento em que tramita no Congresso proposta para limitar o uso de monitoramento remoto na fiscalização ambiental.

Helen Souza, do IEMA, encerrou com a dimensão da desigualdade energética. A transição energética no Brasil não é neutra socialmente: comunidades periféricas e populações de baixa renda são as mais expostas aos impactos do sistema fóssil e as menos beneficiadas pelas energias renováveis. “A tecnologia pode acelerar a transição ou aprofundar a divisão. Depende de quem define as prioridades”, apontou.

Um caminho a seguir

A pressão crescente pela segurança energética, as disputas geopolíticas e os recentes retrocessos ambientais fizeram parte do último painel do encontro. Marina Silva reforçou que a ponte entre intenção e resultado continua sendo a política pública. “O desafio não é apenas formular boas políticas, mas garantir que elas tenham continuidade, escala e capacidade de chegar a quem mais precisa”, disse a ex-ministra.

Já Sonia Guajajara, ex-ministra dos povos indígenas, lembrou que nenhuma estratégia climática será bem-sucedida se ignorar quem vive e protege os territórios onde parte decisiva dessas emissões é produzida ou evitada. Ao conectar clima, direitos e governança territorial, reforçou que a participação dos povos indígenas não é apenas uma questão de justiça, mas de eficácia.

“Não há política climática eficaz sem os povos que guardam os territórios. A floresta em pé não acontece por decreto. Acontece porque há gente que vive nela e a defende. Ignorar isso é desperdiçar uma das soluções mais efetivas que temos”, disse Guajajara.

Ficha técnica:

Evento: Fórum Metano: Freio de Emergência Climática (Rio Nature & Climate Week)

Data: 3 de junho de 2025

Local: Rio de Janeiro 

Realização: Uma Gota no Oceano

Parceiros: Global Methane Hub e Presidência da COP30 Brasil

Apoio: Instituto Natureza & Clima Brasil, Observatório do Clima, Greenpeace e Grupo Globo.

Acesse as imagens do evento:
Crédito: Colabora

Site: www.umagotanooceano.org

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