A inadimplência das famílias brasileiras em contas básicas deixou de ser pontual e passou a ter caráter estrutural. Levantamento da Serasa Experian aponta que cerca de 74% dos consumidores com dívidas de água, energia elétrica e gás mantêm esses débitos em aberto por mais de 12 meses, evidenciando a dificuldade de regularização em um cenário prolongado de inflação elevada, juros altos e perda de poder de compra.
De acordo com o estudo de perfil e comportamento do endividamento do consumidor realizado pela Serasa Experian, as contas de serviços essenciais figuram entre os débitos mais difíceis de serem quitados. Diferentemente de atrasos ocasionais, o que se observa é a formação de um estoque de inadimplência de longo prazo, que se perpetua mesmo diante de tentativas de renegociação.
O peso das contas básicas no orçamento familiar aumentou nos últimos anos, pressionado pelo encarecimento do custo de vida e pela rigidez das despesas fixas. Com a renda comprometida, muitas famílias passam a hierarquizar pagamentos, priorizando alimentação, moradia e transporte, enquanto as contas de água, luz, gás e telefone são sucessivamente adiadas. Em muitos casos, esses atrasos se estendem por mais de um ano.
Esse comportamento gera um efeito cumulativo. Multas, juros e parcelamentos sucessivos ampliam o valor devido e reduzem a capacidade de regularização. Na prática, a dívida deixa de ser transitória e passa a integrar o passivo permanente do orçamento doméstico, tornando cada vez mais difícil a retomada do equilíbrio financeiro.
Os dados nacionais também revelam desigualdades regionais importantes. Levantamentos com base em informações de birôs de crédito mostram que estados da Região Norte, como Acre e Amapá, concentram algumas das maiores proporções de inadimplência em contas básicas, com esse tipo de débito respondendo por cerca de metade dos registros de negativação em determinados períodos. Estados como Roraima e Rondônia também aparecem com elevada participação de dívidas de serviços essenciais no total de pendências financeiras.
No Centro-Oeste, Mato Grosso se destaca pelo crescimento do atraso em contas de água, luz e gás, refletindo a combinação entre aumento do custo dos serviços e renda pressionada. Já no Sudeste, São Paulo lidera em volume absoluto de pessoas com contas básicas em atraso, resultado direto do tamanho da população e da escala do mercado consumidor, ainda que o percentual relativo seja inferior ao observado em estados do Norte.
Patrick Santos, doutor em Economia e gerente de planejamento na Multimarcas Consórcios, aponta que o ambiente econômico recente contribui diretamente para esse quadro. “Juros elevados, inflação persistente em patamar alto e informalização da renda reduzem a margem de negociação das famílias, especialmente entre aquelas de menor renda, onde praticamente todo o orçamento já está comprometido com despesas essenciais.”
Há ainda um fator comportamental relevante. Quanto mais prolongado é o atraso, menor tende a ser a percepção de viabilidade de quitação. Famílias que convivem por longos períodos com dívidas básicas acabam adiando negociações ou desistindo de acordos que não tragam alívio imediato no fluxo de caixa, normalizando o atraso como parte da rotina financeira.
“Os dados indicam que o atraso em contas básicas deixou de ser exceção e passou a refletir um desequilíbrio estrutural entre renda, custo dos serviços essenciais e condições de pagamento. Sem mecanismos mais eficazes de aumento da renda real básica, renegociação, políticas de alívio tarifário e melhora das condições macroeconômicas, a inadimplência tende a seguir como uma realidade prolongada para milhões de famílias brasileiras”, finaliza o especialista.
Fonte: Assessoria de Imprensa
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